Quem estou me tornando?

Minha idade de nascimento é 39 anos, portanto este ano completo 40 anos ao redor do sol. Como é de costume na mulherada e acredito em toda a humanidade do planeta, creio estar em plena crise de meia idade. Creio também que meus hormônios esta semana podem estar favorecendo tamanha reflexão, insatisfação, angústia, mas como tento ver o lado positivo de tudo, tento, vejam bem, preciso acreditar ser um momento de escrever, reflexionar, olhar pra dentro e encontrar as respostas bem dentro do meu coração, desse jeito mesmo. Começo uma retrospectiva desses 39 anos, mas tudo me vem a mente com uma ansiedade danada  e medo, muito medo, meu deus e se eu não conseguir realizar tudo pendente, tantas viagens, tantos amores, fazer a diferença, ter uma vida extraordinária, escrever um livro, visitar outras culturas, vivenciar emoções inimagináveis, ver um elefante, tratar animais marinhos, praticar yoga no himalaia, caminhar no himalaia, conhecer a Índia, mochilar pela Europa, ter um mestre, gargalhar com amigos, ter amigos verdadeiros, ser amada, me sentir segura, ter dinheiro, me dar bem com a minha família, ter minha própria família, praticar esportes, me sentir bem com meu próprio corpo, ter meu dinheiro mais ou menos organizado (muito organizado já não daria, já admito). Mas antes de seguir esta lista de coisas, me pergunto na tentativa de um puxão de orelha e de encontrar o caminho: por que diabos estou sempre insatisfeita? por que diabos estou num lugar sempre pensando que eu deveria ou poderia estar melhor? Se estou surfando em floripa, me cobro que deveria estar procurando trabalho, se estou indo atrás de trabalho, me pergunto por que não estou surfando em floripa, se estou num casamento, prefiro estar livre, se estou solteira, me desespero em busca do grande amor..Sempre assim. Cansativo, não? 

O desafio dos 40 para mim, portanto, se configura em perceber como tenho coisas maravilhosas, e, como diz um antigo amigo meu, como construí uma vida linda. Sim, tijolo por tijolo, as custas de muita terapia, doses incondicionais de yoga e amor próprio e quebradas de cara, construí tudinho, tudinho meu. Um trabalho danado viajar por aí, morar sozinha, recomeçar, estudar, trabalhar. Comecei na minha cidade estudando pra veterinária para acompanhar meu pai. Meu pai morreu, migrei pra praia atrás dos meus sonhos. Surfei mares incríveis, escalei montanhas, viajei para paisagens maravilhosas, tive amores incansáveis, sofri, chorei, ri, tive amigos, amigas, tive festas, tive casas, tive cachorros, tive namorados, tive caminhadas, trilhas, mais viagens, tive perdas, tive encontros. Quanto ao trabalho, trabalhei em concurso, em loja, em creche, na praia, em muro de escalada, em agropecuária, no campo, em ONG, em polícia ambiental, em museu na Argentina, dando aula particular, e por último, dando aulas de yoga. Quantos aos estudos, estudei vacas, cavalos, porcos, dejetos de porcos, bem estar de porcos, microorganismos de porcos, microorganismos do ambiente, microorganismos da água, e por último, gente. Quanto ao dinheiro, tive: tudo de dinheiro (ou pensava que tinha, pois era dos meus pais), nada de dinheiro (ao começar a trabalhar),  médio de dinheiro e nada de problema com isso (ao morar com um baiano, aprendendo a ser pobre num lugar maravilhoso e acreditando que tudo daria certo), e continuei sempre com o médio de dinheiro pois não importa o quanto você ganhe, você gasta na mesma proporção, com a única diferença do início é que você tem que manejar seus gastos pra não passar sufoco, mas no final tudo dá certo, não se vai presa ou se mata por estar sem dinheiro, você só se sente infeliz e irresponsável ao não conseguir pagar as suas contas, mas tudo bem. 
Quanto as viagens, aos esportes, as perspectivas, aos sonhos, me parecem infindáveis, insuficientes, necessários sempre. Eu escolhi não ter filhos, hoje consigo admitir isso pra mim mesma, talvez mude, talvez me arrependa, mas são tantos sonhos e ações por fazer, preciso tanto viajar por aí, ser voluntária em um ONG legal num país inóspito, mergulhar com golfinhos, correr minha primeira maratona, morar na Europa, fazer um trabalho legal, ganhar dinheiro com algo que eu gosto, ter uma pousada, ter uma horta, tudo isso seria muito legal, muito gratificante, e eu espero ter tempo pra isso e muito mais. Eu espero ter tranquilidade para ir fazendo pouco a pouco, mas espero ter tranquilidade para aceitar caso isso não aconteça e ter a sabedoria de identificar como tudo que nos acontece também é válido, é lindo, é interessante. 
Minha vida hoje parece melhor do que eu imaginaria há algum tempo. Eu tenho um companheiro amoroso, bem do jeito que eu imaginava, e era algo de que eu tinha muito medo, ficar sozinha, sem ninguém, não ter uma família. Juntos temos uma casinha alugada pitoresca, em uma praia simples, com quatro cachorros maravilhosos e um hamster, e viajamos de vez em quando, principalmente para o Uruguai e para a chácara. Ano passado, viajamos para o Chile, para eu correr uma corrida na montanha. No outro ano viajamos para Bahia, para descansar na praia. Costumo viajar menos, mas vou bastante para a chácara e para o Uruguai também, mesmo sozinha, algumas vezes para correr, como nesse ano onde corri minha primeira meia maratona, treinei o ano inteiro, e consegui! Sem dúvida, uma grande vitória. Trabalho com yoga, um grande prazer, as vezes ganho bastante dinheiro, outras vezes ganho menos, as vezes tenho algumas contas pendentes pra pagar, outras vezes meu dinheiro me permite perseguir meus sonhos, como meu curso de Vela e uma treinadora de corrida. 
Sempre me questiono como seria minha vida se tivesse seguido a carreira de veterinária, se tivesse isso, se tivesse feito aquilo. Me dá uma tristeza enorme, não consigo evitar, mesmo sabendo como é irracional um pensamento desses: nunca saberemos como seríamos, mas temos a possibilidade de responder a cada dia, quem estou me tornando?
Como? 
Se estou cuidando da minha saúde, praticando exercícios, tentando cultivar os amigos ou tentando conhecer novas pessoas 
Se estou tentando trabalhar com algo que me dá prazer
Se leio, estudo, me esforço para ser alguém melhor
Se vou atrás dos meus sonhos
Se não desanimo
Mas como aproveitar as oportunidades? Como criar novas? Como ter mais dinheiro e mais felicidade? Como ter certeza de que irei aproveitar tudo? Como saber o importante pra mim agora e o importante pra mim após algum tempo? Como me tornar algo de que me orgulho e de que não me arrependerei com o tempo? Como ter amor, felicidade, família, segurança e boas recordações? 
Com certeza ainda demorarei muito para encontrar estas respostas. Imagino uma boa dose de meditação ou talvez uma iluminação repentina ou temporária, ou causada por algum acontecimento ou pessoa. O fato, e preciso acreditar nisso, talvez eu esteja no caminho certo...talvez nada seja em vão, nada seja por acaso, e como diz uma sábia amiga e confidente, talvez todo o vivido tenha me trazido até aqui e todo o aproveitado tenha sido aproveitado da melhor forma, com as ferramentas do momento, e cada oportunidade será percebida sim, não preciso ter medo de não enxergar, de não viver, de não escolher, pois cada caminho me leva a um lugar caminho lindo, diferente sim, mas lindo. 

Talvez seja como escolher um destino de viagem, em um período de férias. Cada viagem tem suas peculiaridades, suas nuances, suas ruas, casas, pessoas. Positivas, negativas. Em uma viagem maravilhosa, não há como dizer, uma cidade é mais linda a outra mais feia, todas as experiências são positivas. TODAS. Tudo vai se desenrolando, hay que se aprovechar el camino. Só isso. 

Bons ventos, boas reflexões, boas meditações. Suerte!











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