Bons ventos

Eu sempre senti que pertencia a água, desde muito cedo, 15 ou 16 anos, caminhava na praia no final de tarde e repetia para mim mesma...vou morar perto do mar, algum dia e para sempre. Já no Mestrado me incluía nos embarques dos projetos das amigas e o doutorado fiz em Oceanografia. Mas agora, ao me tornar Professora de Yoga, morando na beira da Lagoa, senti que era a hora. Quem sabe um dia morar em um barco? Quem sabe um dia (em breve) viajar de barco, sozinha, desbravando medos e ventos? Quem sabe pertencer aos mares, definitivamente? Mas em meio a todo esse devaneio me dei conta não saber nadar nem velejar. Sim. Eu tentei natação por anos, obrigada pelos meus pais, e só o que consegui foi problemas respiratórios e a vergonha daquela touca na minha cabeça de cabelos secos e hormonalmente rebeldes. Bem, ainda me restava o seguinte, digamos, detalhe de não saber nem a rosa dos ventos.  Comecei a conversar com amigos, irmãos de amigas, desconhecidos, menos a família, pois eu temia (reais) represálias. Comecei a assistir vídeos maravilhosos de pessoas morando ou alugando barcos, e internamente, mesmo sem falar nada pra ninguém, começava em mim essa movida. Eu olho minha casa enorme, abarrotada de móveis, livros, roupas, enfeites e coisas esquecidas e com pó. Eu canso meus braços e gasto todo o meu dinheiro e tempo precioso limpando, arrumando, colocando (tentando) essa montanha de coisas em seu devido lugar e nunca elas têm lugar, ou seja, um gasto intenso de energia. Eu sonho em viajar e levar uma vida mais simples, sendo feliz com pouco, mas parece muito difícil começar, aliás, por onde começar? Então liguei para me matricular, finalmente, em uma Escola de Vela, a Sotavento. O segundo passo, mais inesperado, foi me mudar para uma casa loft, tinny house, ou garagem mesmo, e das pequenas. Um grande terreno, um aluguel bom e uma vida mais simples, ainda não ideal, mas já irei reduzir em 70% meus pertences. Tudo ainda está acontecendo, mas já me sinto mais livre e não páro de pensar um só minuto no vento no rosto, na atenção dos meus olhos na água, na mão escorregadia no leme que insiste em fugir na minha inexperiência, e no sol torrando meu rosto me trazendo a aparência tão desejada de uma velejadora real e experiente. Soube que poucas mulheres se aventuram na minha cidade e outras muitas até moram em seus veleiros, como a Cristina Amaral e a outra do episódio #sal, série de vídeos viciantes no youtube, tudo bem inspirador. Também estou animada em ter meu dia livre e sem cama para arrumar ou móveis para trocar de lugar e também para decorar tudo do meu jeitinho, colorido, pequeno, aconchegante.
Meu primeiro dia de velejo sozinha me senti o ser vivo mais feliz de todo o universo. Meu professor começou a arrumar o bote com motor e eu logo entendi que o dingue seria só meu, eu teria que engolir o medo e pensar no que fazer. Algumas bóias atropeladas e um jaibe ousado, espero que jaibe se escreva dessa maneira, saí com um sorriso enorme e pronta para outra. Cabos, moitões, velas, muita coisa para aprender. O próximo velejo seria no barco que eu conseguisse ter autonomia para montar sozinha. Eu tentei então colocar o mastro do dingue sozinha, muito pesado, não consegui, então o Laser Pico seria a próxima opção. Eu me dei conta que poderia devorar a apostila, decorar o nome dos nós, cabos e direções do vento, o que contava era minha entrega e sensibilidade, além da prática e consequente tranquilidade. Rajadas de vento me levaram a adernar um pouco e eu soltei um ãaaii medroso. E se eu caisse? Então pra responder minha pergunta eu caí mesmo, de boné e dez graus no sol em uma manobra mal feita. O medo era de não entrar nunca mais ar nos pulmões, o frio me paralisava  junto talvez a adrenalina do desconhecido. O Rodrigo calmamente me instruiu a segurar a bolina e virar, sem maiores dificuldades, o barco de volta. Eu não sentia mais frio, e pensei alto, agora eu vou conseguir, e velejei mais algumas horas, já calma, realizada e feliz, certa de ter encontrado o meu lugar no mundo.














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