Somos todos GUERREIROS (Arno Ilgner)

Cheguei na tarde de sábado ensolarado na Capital, exatamente como tinha imaginado. Um dia antes coisas negativas aconteceram e pensando bem, todas essas interpéries levaram aos acontecimentos perfeitos do meu final de semana. Minha amiga Nívia me buscou na rodoviária, e nos dirigimos em meio ao trânsito desarrumado de Porto Alegre entre conversas e lembranças. Subimos até seu apartamento no Bairro Bom Fim, e com um mate encontramos nossas outras amigas das montanhas, dessa vez sentadas e tranquilas no Guaíba. Vestíamos roupas coloridas, bolsas, cabelos soltos, muito diferentes de nossas imagens comuns. Eu calçava botas, mas mantinha a mesma jaqueta surrada com um furinho no cotovelo, o qual lembro exatamente onde o consegui, na via Obrigado Pela Vida, em Caçapava do Sul, uma das poucas vezes que estive lá. Finalizamos o dia com um café e um brioche em um dos muitos cafés espalhados por essa região linda de Porto Alegre. 
Minha cabeça estava decidida a realizar este curso. Mesmo não estando treinando e nem escalando eu havia percebido a importância da escalada na minha vida e estava disposta a me aproximar sempre das coisas importantes para minha felicidade. Chegamos em Ivoti bem cedo mas Arno, Gabriel e Betina chegaram em seguida com o resto da turma do domingo. Arno é um escalador do Tenessee, Estados Unidos, e decidiu após brigar com os preceitos da sociedade e um ego esmagador comum a todos nós mortais, seguir o caminho do guerreiro, o caminho da paixão, da vida, do viver para realmente viver e não assistir aos dias como à um filme entediante. Com 35 anos abandonou seu trabalho e começou a estudar para depois de algum tempo, ensinar O Caminho do Guerreiro e tornou-se escritor e Mestre de muitos e muitos escaladores em todo o mundo. Cabelos brancos, olhos azuis profundos, um riso contido e fácil, mãos de escalador, uma calça larga preta e a camiseta do curso. Gabriel, seu trainee e nosso tradutor, nos deu as boas vindas em português em seu jeito amineirado e tímido, centrado e concentrado em sua tarefa, como aprenderíamos ser o jeito certo de levar as coisas. Subimos a trilha rápida do Behne em passos ansiosos e as cordas já nos esperavam em top rope. Eu sentia minha respiração asmática ansiosa dar seus primeiros sinais adolescentes que eu estava sim muito feliz de estar ali, participando de um acontecimento tão legal para minha formação, como pessoa, como guerreira, professora e apaixonada por escalar. O primeiro passo era se apresentar e eu ensaiei um inglês curto e atrapalhado, mas em seguida conseguiria me soltar mais. Minha dupla escolhida era um rapaz simpático, sério e interessado, e nossa via um sexto, a do porco, eu pulei a parte da escalada pra concentrar meu esforço na técnica que tínhamos aprendido, e ouço Arno me dando as primeiras instruções. O curso consistia em longas conversas teóricas onde sabiamente os Instrutores nos levavam a refletir antigos conceitos de Atenção Plena, Controle da Respiração, Consciência Corporal, Samurais e olhos no momento presente. Mas tudo isso caindo, respirando, movimentando os braços corretamente, dobrando os joelhos para diminuir o impacto e, principalmente, sem medo, sem ego, com total racionalização e atenção na tarefa CAIR, como deveria ser em TODA via, toda tarefa e em toda nossa vida. 
Mas seus ensinamentos para mim foram muito além, me trouxeram junto com seu livro foleado e saboreado no ônibus de volta, um sentimento pleno de tomar consciência e responsabilidade por nossas decisões. Trata de, com determinação, sem levar em conta a famigerada voz de nosso ego insistindo para ouvirmos preconceitos, regras e maneiras de se fazer, tomarmos nossas próprias decisões movidos unicamente por nosso eu interior. E, uma vez tomada nossa decisão, seguir pacientemente, em passos pequenos, ampliando nossa zona de conforto, focando tarefa por tarefa, curtindo o processo, até a obtenção de resultados.  Seja na vida, na escalada, escutamos o tempo todo como e de que jeito devemos fazer, nos comparamos o tempo todo com os outros, com o que éramos e cobramos o tempo todo, em nosso trabalho, em nossa relação, EM NOSSOS PROJETOS DE VIDA, em uma via, o controle, o certo (o que é o certo se não o que está em nossos corações?), o êxito, e desacreditamos totalmente como somos únicos, especiais, e como devemos nos divertir, e muito, em TODAS essas experiências.

Cheguei em minha cidade completamente refeita, completamente distinta da ALESSANDRA do dia anterior. Finalmente havia percebido o tanto que me boicotava para não falhar, o tanto de tempo indo atrás da aprovação dos outros e mais outro tanto sem saber escutar MINHAS vontades, MEUS objetivos, além de não lembrar de alguma tarefa que tenha sido com completa determinação e atenção. Certa da guerreira que sou, livro em punho e coração tranquilo, dormi o sono dos samurais nesse dia: pronta para uma nova batalha e certa da minha indiscutível vitória.

Bons ventos! 
El Mate

THE Guy

Almas

Saindo cedinho

Aquelas manhãs que só os escaladores conhecem

O time


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