A boa filha a casa torna


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Mais uma vez retorno a escalada, pois uma boa filha sempre retorna a casa, sempre pertence a ela, e nesse caso, minha casa são meus amigos, minhas montanhas, os lugares onde estive e minha escalada. Programei minha ida entre trabalho e uma agenda lotada e um namorado ocupado. O feriado eu tinha ido pra chácara, curtir cachorro, casa, família, mas nesse dia, o vento no rosto, os pés descalços, o tilintar das costuras me chamavam. Mas como não programamos nem prevemos nada, nada disso aconteceu, eu mal senti o cheiro do magnésio nas minhas mãos, eu mal calcei a sapatilha, eu não tive medo, nem frio na barriga. Senti o suor no rosto sim, senti a ansiedade em uma via nova, mas bem acima do meu físico, mas tudo bem, não controlamos nada mesmo. O Seminário de Ética de Escalada e Montanhismo estava marcado para as 10h de Sábado e na sexta eu já estava em Porto Alegre. Corri animada do táxi para a casa da minha amiga e sentamos na cama até as 2 da manhã como adolescentes, conversando dos dias, dos tempos, dos namorados, como se o tempo não tivesse passado pra nós. Chegando na sede da Associação Gaúcha de Montanhismo, encontrei vários conhecidos, do tempo em que eu morava em uma ilha e escalava na quarta feira no Morro da Cruz. O encontro era pra discutirmos um documento importante, onde pautamos nossa atividade como de mínimo impacto para o ambiente, através de práticas de boas maneiras, bom senso, bom convívio e tudo mais. E o que se viu foi tudo isso mesmo, um pouco de animosidades nas discussões, itens longos, mas tudo se ajeitando com mate, risos e amizades fortes a base de pontas de corda, caminhadas e longas noites a beira do fogo. Saímos de lá já quatro da tarde e dirigimos até um dos picos mais conhecidos de nosso estado, o Itacolomi, berço do montanhismo gaúcho. Confesso que havia pensado em outro lugar, o Ita, como é chamado, tem vias duras, muita gente, mas caminhando pela trilha úmida, com meus amigos de longa data, pés na terra preta, mãos tateando no escuro na volta, como há muito tempo fiz sem achar ruim, admiti ter gostado de tudo, mesmo sem ter praticamente escalado. O segundo dia, vejam só, também não escalei. O temporal da noite nos deu medo de tentar o Ieiê, local novo de vias de difícil aproximação, e na enrolação do domingo optamos pela programação cultural que somente nossa capital nos oferece, Lenine no Parque da Redenção de graça, um sem fim de gente bonita e descolada tomando chimarrão num dia ensolarado e quente.

Por fim, corri do Museu do Iberê Camargo direto para o ônibus, mochila nas costas, cabelos desgrenhados e unhas curtas, sem destoar muito dos jovens de 20 e poucos anos cheios de sonhos ansiosos do meu ônibus. Lembrei me recostando encolhida no ônibus, por quanto tempo fazia isso sempre, não com tantas responsabilidades, mas com a mesma alegria de viajar e viver. Busquei o livro na mochila desarrumada e sorri lembrando das minhas amigas e eu na cozinha sentadas dividindo sonhos, fases, conselhos, como se a última vez que havíamos nos encontrado tivesse sido ontem.
 
Cheguei em Pelotas certa de que a gente não se perde nunca de quem somos se realmente amarmos de todo o coração o que nos motiva. O caminho do meio, segundo minha amiga, nos mostra o ser feliz sem precisar escolher em ser isso ou ser aquilo, ser bem sucedida ou ser feliz, o simplesmente deixar viver e identificar nossas amplas possibilidades nos leva rapidamente a tranquilidade e ao bem viver. Que a gente nunca se perca de nossa essência, nosso sabor, nosso tempero. Que a gente ache sempre como conciliar sonhos, trabalho com paixões. Que exista sempre anjos mostrando o caminho.
 

 
 


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