Coração Quente

E como não poderia ser diferente, esse ano, mesmo numa intensa rotina de trabalho e economia de grana, corri para O Caldeirão. Para mim já é um ritual de final de ano, um tempo de rever todo mundo, preencher o coração, ralar os dedos, trabalhar, dançar, acampar, aproveitar muito. E este ano teve um significado todo especial, eu estou há um tempo parada, há um tempo longe de todo mundo, há um bom tempo longe de muita coisa. Eu não tenho escalado, eu não tenho dividido pontas de cordas e mate, não tenho acordado com o sol confortável no meio do mato, não tenho dançado entre melhores amigos, nem me divertido tanto assim. E, até final de semana passado, eu não tinha colocado a mochila na estrada, nem lido um livro sentada em um isolante, e havia tempo não escutava o tilintar das costuras. Amizades velhas e novas, conversas boas, carro cheio, mochilas empilhadas, parar no posto pra gastrol, dividir a água, tomar um bom café da manhã. 
Como se não bastasse, o Camping era só nosso, o sol era só para nós e o evento estava grandioso, iluminado, bem organizado, e divertido pra caramba. E eu não sei se pelo yoga, se pela idade, eu estava sem ansiedade pra curtir cada momento, saboreando desde o desenrolar do saco de dormir, até o desamarrar da corda e da sapatilha, curtir a piscina despreocupadamente, e conversar com cada um com amorosidade. Precisava saborear cada instantinho como quem abre um pacote de bolachas recheadas e ainda come um lado, depois o outro, deixando o recheio pra raspar igual criança levando bronca da mãe que não é pra demorar tanto e se lambuzar. Eu queria me lambuzar mesmo, comecei chegando um dia antes. Deitada na barraca, pensava, meu deus, eu tinha isso como rotina. Senti um aperto no peito, de perder tempo, de me afastar de algo tão essencial, vital até. Quando amanheceu, eu só lembro de ir rapidinho pra rocha, depois de tagarelar aqui e ali, consegui companhia e fui. Comecei a escalar, era como se nunca tivesse parado, vias fáceis, mas a lembrança do magnésio, da rocha nos dedos, dos pés, o medinho de não dar conta, e de dar tudo certo no final. Seis meses já tinham se passado desde minha ida a rocha, mas naquela hora eu senti com um sorrisinho interno, está aqui, a escalada está e sempre estará aqui, eu não esqueci!!!!! Meu medo de morar longe e perder o vínculo, o tino, a vontade, a prática! Meu medo dava lugar a uma sensação de tranquilidade. Então vi minha amiga escalando a via ao lado, nossas vias iriam se cruzar, era a mesma parada, em outros tempos eu apressaria o passo, me cobraria rapidez, mas eu resolvi parar, acomodei a corda na costura, o pé em um confortável platô, e apreciei ao redor, escutei algo sobre a costura, não dei importância, era uma via escola, eu estava serena e apreciando tudo, esperando minha vez, meu tempo, minha hora de evoluir. Em uma outra via, eu hesitei a entrada, cansada do dia anterior, preferi, sem ansiedade, deixar pra lá. Ela já havia sido meu desafio de muitos outros verões, eu não precisava lutar contra ela de novo. Ouvi então da minha parceira, eu vou entrar, ela é fácil, muito fácil, um quinto. Eu lembrava ser um sexto sup doído, então ela entrou, não mandando de primeira, joelho no crux na segunda tentativa, era um 6sup afinal, e eu pensando, em outras épocas eu teria me forçado envergonhada e por companhia a entrar, e teria mais sofrido que me divertido, então lembrei que ainda naquele dia, eu me permiti entrar de top rope em uma via fácil por estar cansada, sim, era uma evolução. Boa ou ruim, mas uma mudança, uma aceitação.
E para todos, acho que o Caldeirão significou essa mudança boa, mesmo sem perceber. Da ansiedade, pra união e serenidade. Da tentativa pra sabedoria. Da dor para o prazer, puro e simples, o aproveitar, compartilhar. Mesmo trabalhando, todo mundo se divertiu, se doou mas recebeu, chorou mas riu muito mais. 
O domingo de yoga então, enosou minha garganta, brotaram lágrimas devidamente repreendidas e controladas, mas tão intensas a ponto de deixarem transparecer a gratidão, o envolvimento, a energia de amizade, paz, troca e intensidade. Eu normalmente preparo alguma coisa mas nesse dia, eu simplesmente me concentrei alguns minutos antes e deixei fluir, deixei minha voz ser guiada por um monte de olhinhos diante de mim, sentados em sukásana, com uma vibração indescritível.
Se eu escolhi o caminho certo ao ser professora de yoga? não sei..Se irei escalar para sempre? com certeza..Se serei feliz como nesses dias tão bons? assim espero...
POIS FELICIDADE ME CONVENÇO ENTÃO SER PEDACINHOS DE CALDEIRÕES DO BEHNE COMO ESTE 🙏🏻💕


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