Minha primeira corrida de rua



Desde alguns anos eu me encanto por movimento. Amo o vento no rosto, o cansaço, experienciar o difícil, me surpreender comigo mesma. Busco sempre novos desafios, novidades, o reinventar. E corrida sempre me encantou. Mas encanto infelizmente não é sempre sinônimo de vitória, aptidão ou facilidade. Confesso que demorei a iniciar, a perder o medo, a ter um tantinho de disciplina, aliás, essa nem veio ainda. Corria uma vez, outra, chovia, ou me sabotava. Desde alguns anos o bichinho me mordendo, já que não tenho tido muitas oportunidades para escalar, via a corrida como uma emoçãozinha semelhante a das montanhas, mas como começar, e como continuar?
Então em dezembro de 2014 me inscrevi para a primeira prova. Morava no Cassino, saí um dia da faculdade mais cedo e imprimi o boleto de 60 reais da Mizzuno de Porto Alegre. Entrei na videolocadora sorridente, e contei pro atendente/caixa/amigo: tu sabias que eu vou correr 3km na corrida de rua de Porto Alegre? E nem vi a expressão dele, porque nem interessava, eu já me sentia uma corredora nata, atlética, poderosa e invencível. Mas a corrida caiu no dia 13 de outubro se não me engano, e naquela semana lembro de ter tido uma série de contratempos terríveis e inadiáveis, e mesmo assim, pensava, não deu dessa vez, mas vai dar. E continuava treinando, vez ou outra, avenida inteira, meia avenida. Praia, meia praia. Então separei, mudei de cidade, mudei de vida, de peso, de amigos, e minhas novas amigas escaladoras topavam uma corrida de montanha de um dia inteiro. Marcamos um treino no Pico da Canastra, região de Canela, RS, um lugar com boas escaladas e estradas íngremes. Choveu, bebemos bastante vinho e caminhamos bastante, sem escalar nada, mas sonhando enquanto camínhávamos tagarelando eu e Mauren, imaginando a dor nas panturrilhas, a mochila pesada, a sede, a exaustão. O treino passou e...não falamos mais sobre isso. Eu já morando em Pelotas, sem escalada praticamente, muito trabalho, e sem vida outdoor, comecei a observar o que me cercava, e, apesar de reclamar o tempo todo, vi que morar na praia não era tão ruim assim. Comprei um cachorro pra nova casa e as caminhadas e corridas começara, tímidas, bem tímidas. Me inscrevia em prova, convidava amigas, tentava personal trainer, inclusive conheci meu namorado nessas correrias de: por favor, alguém me ajuda a começar a correr? e também grupo no whatsapp. Desde janeiro então já me sentia mais confiante. Comecei a perceber que conseguiria, o cansaço vinha, mas eu aguentava bem, os primeiros 10 minutos eram sofridos, mas depois eu sentia que fluia, e eu ia, e as vezes voltava da avenida, o que totalizava quase 4km. O tédio de correr sozinha me incomodava, adorava a sensação pós corrida, mas no meio da avenida já não via a hora de voltar e não cheguei a pensar nos fones, então um dia por semana ia, nos outros só se meu namorado me acompanhasse. Sem falar na desculpa do frio, do tempo, da dor, da preguiça, da chuva...
Então li na internet sobre uma corrida na minha cidade, o Circuito Sest Senat. Fiz a inscrição. E no dia limite, não tinha dinheiro na hora, e deixei. Boicote, medo, procrastinação e outros desvios. Mas então li de novo na internet de outra corrida, dias depois, e uma amiga iria correr, me animei, mas, de novo, não me inscrevi. Deixei, deixei, até que caminhando no centro entrei na loja, paguei e pronto. Pelotas night run, aqui vou eu.
Fiz a inscrição uma semana da corrida, eu teria cinco dias para ir do zero ao 5 km. Mas eu sabia que estava disposta, com saúde e não totalmente parada, estava pedalando, dando minhas aulas de toga, portanto respiração ok, e vez ou outra jogando tênis, logo, pensei, posso tentar chegar aos 5 km. Claro que nem me lembrava do detalhe que eu NUNCA TINHA CORRIDO 5 km. Eu só imaginava que conseguiria. E CONSEGUI!
Consegui treinar uns 3 dias da semana, mas me sentia bem, confiante e descansada. Minha estratégia era aquecer bem, caminhar antes cerca de meia hora, pois sabia que meu sprint era péssimo, e minha resistência boa para longos esforços. O dia da corrida estava ensolarado, e eu confesso que estava ansiosa, me sentindo feliz, mas perdida, sem saber como seria, como agir ou o que esperar. Procurei almoçar direitinho e descansar, mas não resisti aos doces de tarde e, nervosa, comi uma barrinha e um carbo gel, tudo junto com muita água, com a boca seca do gel e da ansiedade. Meus amigos estavam lá, amigas iam correr, minha amiga super parceira e alegre, tudo isso deu uma animada e uma acalmada, mas eu já queria era sair correndo, a estrutura super legal, um monte de gente, tudo muito colorido. Um monte de gente reclamou da organização, mas eu admito ter gostado bastante, mesmo sem ter participado de outras para comparar. Me senti super assistida e acolhida, tinha gente para mostrar o percurso, tinha recepção na chegada e deu tudo certo. Eu achei água totalmente dispensável por ser um percurso máximo curto (10km), e, mesmo tendo criticado o tecido da camiseta, me calei diante da medalha de participação bonita, pronta entrega dos resultados, e festa alegre. Mas enfim, larguei. 5km, chip no tênis, faixa na cabeça prendendo a franja, e todo mundo na minha frente. Com vergonha, fiquei lá atrás na fila, primeiro erro. Meu ritmo inicial tem que ser lento e constante, senão falta no final. Mas azar. Quase de última da fila, segui firme olhando pra baixo e concentrando na respiração. Comecei a curtir as luzes, a solidão na multidão, e deixei a vergonha de lado. Eu acho que tava de último, mas já nem me importava. Um cara emparelhou do meu lado e seguimos uns 2km, concentrados, sem balbuciar nada, só respirando, um dando força pro outro eu acho, mentalmente, mas sem se conhecer, sem se olhar, se ele acelerava, eu acelerava. Então o pessoal dos 3km deu a volta e eu já estava na subidinha, um medo imenso de me cansar, preciso respirar, e fui. Eu nem pensava se faltava muito, pois estava muito bem, mas não pensei em apressar o ritmo, segundo e terrível erro. O medo de não completar me angustiava um pouco, mas então o medo de ficar em última começou a incomodar, e comecei a tentar passar um e outro, mas com cautela, MUITA cautela. Quando vi já estava na volta, mas não conseguia visualizar quanto faltava pra calcular um pique final, os carros atrapalhavam um pouco, então quando vi já estava na esquina de uma quadra antes, aí apressei, e então cruzei a linha, descabelada e suada, pronta pra ouvir o barulho do chip. Eu completei. Sem caminhar, sem taquicardia, sem unimed, desfibrilador ou sal embaixo da língua, estava inteira, suada, é verdade, mas E-MO-CiO-NA-DA! Corri pra ligar pro meu namorado, gritar pra minha amiga e avisar pra minha mãe, achei que merecia faixa, torcida, entrevista na televisão e homenagem pelo meu GRANDE feito, eu estava realizada. Confesso que quando comecei a ver as colocações e os tempos de prova, desbundei. Caramba, por que diabos não corri rápido? Sofro de criticismo e perfeccionismo feroz e por vezes preciso esfregar os pontos positivos e maravilhosos das situações na minha cara.  Perceber os bons momentos da vida, as vitórias, conquistas e prioridades da vida. Eu tinha conseguido e ponto, sem mais. Abracei meu namorado, apertei minha medalha, agradeci e pensei satisfeita: deus do céu, a gente só não pode, o que a gente não quer. Boas corridas!!!!

Geral da corrida, muita gente, muita cor e muita ansiedade.
Meu primeiro kit, igual brinquedo novo, igual presente.
Treinando exausta e já no ritmo de: sim, eu sou uma corredora! 
O yoga me ajudou bastante, com ele comecei minha nova vida, mais leve, mais natural, e ser professora me deixa sempre em movimento. Minha respiração na prova estava leve, nasal, profunda e com certeza ajudou corpo e mente.

Quando terminei a prova corri pra encontrar o Roger, estava ansiosa e feliz, e claro, esqueci do meu carro, e...da medalha! Então voltei correndo e comemorei em grande estilo!




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