Domingueira de Pedal: um alegre recomeço

Chega uma hora que a gente cansa de tentar seguir o juízo e decide dar uma escapadinha. Estou morando em um cidade legal mas com um clima do cão. O clima afeta todo mundo e já se comprovou por aqui que 60% dos pelotenses sofrem de depressão nessa época. O meu caso a combinação chuva, frio, pouco dinheiro, pouco trabalho e muito estudo têm me deixado perdida, sem motivação pra rodar a baiana, sacodir a poeira e dar a volta por cima. Então após três dias na cama, um namorado sem saber mais o que fazer e uma mãe preocupada, juntei uns amigos, entrei em contato com um grupo e resolvi me inscrever pra um pedal. Contrariando minhas raízes cicloturísticas, eu não sabia como iria me sair em grupo. Pra completar, minha bicicleta estava aos pedaços, mas eu já havia decidido a não esmoirecer. Escutei risadas e alguns desencorajamentos (Como você vai pedalar depois de tanto tempo parada?)(E a pneumonia?)(Essa é a sua bicicleta?) mas nada iria impedir meu retorno, a alessandra online de óculos e controle remoto ranzinza em casa não era meu objetivo. Era verdade que estava ciente de meus objetivos de passar num concurso, ter estabilidade, sofrer e sacrificar meu tempo pra isso, mas conciliar uma vida regrada com minhas paixões outdoor deveria estar nos meus planos. Convidei um casal de amigos parceiros demais e sete horas da manhã estávamos no local combinado. Eu nem preciso dizer que o tempo estava péssimo, frio, tudo encoberto. Roger me levou de carro acompanhando até o encontro, minha bicicleta tremia nos buracos, com a suspensão totalmente capenga, eu achando engraçado mas com uma pontinha de 'ai, meu deus'. Um dia antes eu tinha topado com a borracharia vizinha, que se dispôs a recolocar os freios e lubricar a Janis Joplin, mas como o percurso era curto, eu não estava preocupada, mas não queria também passar vergonha com tudo quebrado e rangendo. Pedalamos 13 km até encontrar o grupo, e embarcamos num ônibus bem divertido até a ilha. Por incrível que pareça eu não estava falante, eu me via introspectiva, estranhando e absorvendo tudo aquilo. Por um bom tempo eu virava as costas, pegava a mochila e me mandava e agora eu me via com asma, 30 e muitos anos e dividida entre o aconchego do lar enrodilhada com meu namorado, calmamente protegida ou em um ônibus com desconhecidos indo pedalar na chuva. Sim, chovia. Chegamos na Ilha dos Marinheiros em Rio Grande no meio da manhã. E tinha muita, muita gente. Muita bicicleta, muita coisa, uma estrutura muito legal e alegre, inclusive alguns conhecidos. Começamos a nos acomodar pra sair perto das onze e dada a largada, uma verdadeira multidão pedalava. Seguimos num ritmo passeio lento e aos poucos já tagarelávamos alegremente no final da fila. A ilha é uma colônia portuguesa de pescadores e agricultores, e toda, toda casa mesmo, tem uma enorme horta super caprichada. Domingo e observamos mesmo nesse dia santo, famílias inteiras reformando casas, trabalhando na terra e outros pescando. Há vendas locias, cantinas e restaurantes com produtos artesanais locais, como a famosa Jurupiga, uma bebida doce que adoro, além de cuca, quentão, pães e doces. O ponto central da ilha é uma lagoa de água doce circundada por dunas e pela única estrada de 24km, nosso percurso. Completamos com tranquilidade em uma hora, curtindo a paisagem e parando para fotos e, claro, pra provar um café com cuca. Os últimozinhos eu me vi acelerando o passo, me sentia sem cansaço nenhum e sentia falta do suor no rosto, das pernas doendo e do vento. Queria aquela sensação boa também de contemplação silenciosa, de você com seus pensamentos e alívios, da natureza te trazendo a paz necessária. E também achei que meu casal de amigos poderia estar querendo namorar um pouco sem a amiga penetra falando e pedalando sem parar. E fui. Passei um grupo e outro, me vi pedalando bem e bem rápido, um orgulho só, lombar e joelhos ainda lá, não estou tão velha assim, pensei, e em seguida a chegada, um grupo animado nos encorajava, sorri achando tudo muito acolhedor e divertido, me sentia feliz. O almoço já tinha começado, comi por curiosidade, sem fome pela cuca robusta e calórica devorada anteriormente, e minutos depois já carregávamos as bicicletas para a volta. Mais uns 15km pedalando até em casa e uma gratidão por ter amigos tão legais, uma bicicleta tão guerreira e uma vida cheia de possibilidades. 



Turma enorme e animada
Cheganda na ilha
O ônibus que levou toda a turma

O grupo reunido, Pedal Domingueira

A bike monareta do Gian foi a super atracão
Eu já tagarelando

Muito legal o registro, todas as fotos postadas são gentileza do Telmo e da equipe do Pedal Domingueira

Água e frutas

As magrelas a postos

O caminho

Trio parada dura

Quilos a mais deliciosos
Preparando

Quase largada
Me 

Me sentindo

Comentários

Wagner Passos disse…
Respirar... respirar... respirar.... e não ter pressa.

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