Climbing to fly

Muitos dias de verão desde a ida a Canastra com as meninas (sem escalar por causa da chuva) volto a pedreira de pelotas. Eu gosto de treinar, de correr, de me sentir no limite da exaustão muscular e de calor. Mas a pedreira é sacanagem, as vias fáceis pra mim são difíceis e eu sinto a falta de um murinho e de anos a menos na barriga. A parceria é boa demais e nos divertimos por vezes comendo panetone e club social. Hoje resolvemos voltar a fendinha, já que eu não posso nem ouvir falar em Mutação, a única via quinto sup encadenável pra mim neste momento. Acomodo a corda e vejo minha sapatilha ressecada, dentro de uma mochila intocada no último mês. Coloco a cadeirinha, o magnésio, Mateus guia a via e eu entro tentando o boulder, a manhã passa e estamos ali. Meu cabelo parece uma paçoca e me sinto suja e ensopada, uma mistura de esforço com alegria genuína. Eu lembro então de tantas conversas sobre escalada, tantas visões sobre o mesmo sentimento e atividade e me dou conta de como com passar dos anos pouca coisa importa pra mim lá fora. Minhas experiências e sonhos, o momento presente, os amigos, meu corpo e meus limites, meu treino, meu esforço, meus planos, meu dia a dia. Meu dia. Me sinto mais imune a opiniões, expectativas, fotos, histórias, passado, futuro. Espero viver o hoje e nada mais, quando  esse pensamento fraqueja, logo meu auto controle me impõe segurança e me traz uma tranquilidade avassaladora misturada a paz e felicidade de ser eu mesma. Viro de cabeça pra baixo na corda, girando as pernas pra cima, como uma criança sem medo, e vejo que já é hora de ir embora. Então eu, que muitas vezes me perguntava sobre o almoço de domingo com a família dos meus amigos atrasados que saíam correndo da escalada, me vejo nessa situação amorosa e alegre, ansiosa para almoçar com os meus, pra cuidar da casa, pra trabalhar e estudar. Coloco as garrafas de água na mochila, e uso finalmente a toalhinha portátil da petzl presa a cadeirinha pra me devolver um pouco da dignidade que perdi derretendo no calor. O dia está só começando e eu já sou a pessoa mais feliz desse mundo. Boas escaladas. 



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