Porque um homem precisa viajar. Precisa?

Amo viajar. Incontestável. Amo avião, amo mochila, amo o novo, amigos, dormir em barracas, outra língua, tudo, tudo a ver com a viagem em si. Meus últimos dias e meses me detenho planejando minha próxima grande e memorável viagem. Meu noivado e meu doutorado eram as únicas coisas semelhantes a raízes pra mim até o último ano, terminado isso então, imaginei ganhar o mundo. Juntei algum dinheiro e deixei lá. Mas nesse meio do caminho, viajei pra um lugar pertinho, com um amigo mochileiro americano. Ele já havia visitado muitos, muitos países. Já havia sido voluntário na Africa e vivido por 6 meses na Índia. Já tinha trabalhado em Amsterdam e ganhado dinheiro em colheita de maconha na Califórnia. Ajudou comunidades na Tailândia, se embebedou na Bolívia e conheceu comunidades xamânicas no Peru. Eu, com minha humilde América do Sul na mochila, sentia uma profunda angústia e ansiedade ao saber de tudo isso. Como não escalei no Nepal? Como não viajei pra Europa ainda? Mas então nossa viagem começou, me acomodei confortável no hostel, visitei museus, praias, mercados, igrejas. Embora já conhecidas, eram lugares extremamente bonitos e pitorescos. Eu me sentia confortável, porém não emocionada. Alegre em demasia, realizada, nada disso. Me sentia bem. Viajamos então para uma praia pequena, nos acomodamos com um casal simpático, ele belga e ela uruguaia, e mais um brasileiro e uma argentina. Sentamos ao redor da mesa rústica de madeira, com panelas penduradas em uma rede de pesca, com uma lua enorme e uma noite que teimava em não escurecer mesmo dez da noite. Conversamos demais, rimos, bebemos e compartilhamos de uma energia incrível, uma alegria, me preenchendo, me alegrando intimamente, nunca mais esquecerei dos candombes, da última cerveja na trilha para o pueblo, do frio, dos abraços e risos. Quando a viagem seguiu eu me perguntava incessantemente se queria seguir viajando. Lembrava da minha horta, dos meus cachorros amados, da minha rotina gostosa, da minha praia, das minhas aulas de yoga. Eu ainda não tenho muitos amigos por aqui, mas os poucos que tenho, senti muita saudade. Senti vontade de estar com a família e me diverti pela minha mãe estar cuidando da minha casa. Tudo isso tão perto, tão acessível, e eu longe. Quero muito viajar. Quero e vou conhecer outras culturas, talvez mais do que eu imagine, já que não tenho família e filhos ainda, mas tratei de me dar conta o quanto temos por perto. E ainda observando meu amigo, tão cheio de experiências, mas tão confuso em valores ou certezas, para mim, que me vejo tão mais consciente, livre e alegre, mesmo sem ter saído tantos quilômetros assim. Viajar, sem perceber ou vivenciar o lugar, pra mim, DIGO, PARA MIM, não é tão enriquecedor. Viajar sem ter empatia pelo povo, sem se aproximar dos costumes, sem ao menos ter comido alguma comida típica...viajar somente pelo carimbo no passaporte, somente pelas compras ou bebidas, sem nem ao menos deixar um pouco de si, ou ainda sem levar como souvenir um costume, um sentimento, uma impressão local? Pra mim não dá. Sou toda intensidade, vivência, CVC pra mim não combina, fast travel nem pensar, hotel e mala de rodinhas eu gostaria, mas não sei carregar, e, adoraria, de verdade, me contentar com pouco, seria mais fácil, invejo as pessoas da primeira classe, mas eu, juro de pés juntos, prefiro viver na roça pra provar o leite mineiro entregue na porta, amei pegar carona de barco em ushuaia e me orgulho de ter aprendido a cozinhar arepas na colômbia. Declaro, então, no auge das minhas férias, estou de volta, e pra ficar. Viajar é bom, mas bom mesmo é voltar. 
Em casa, com meu cão.


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