Cuentos de Uruguay

Minha janela é bem pequena e uma palha recobre o teto e parte dela, impregnando completamente meu charmoso e acolhedor pit stop em Punta del Diablo. Absolutamente nada saíra como planejado e trato de absorver tanta mudança. Uma semana de férias e penso em já regressar amanhã e me sinto muito confortável com isso. Um pouco tremendo por ter sido tão corajosa em ter abandonado a viagem no meio, mas contei com o mate e conversa de minha hostess e amiga uruguaia. A aula de yoga divertida me trouxe mais dois novos amigos também e senti a importância de praticar e praticar para mim. O aroma de maresia e o som dos candombes ainda rondam meu ambiente e eu me pergunto a razão de vir tanto para essas bandas, me pergunto como me sentiria na turquia, veneza, talvez nepal, e a resposta para essa pergunta pra mim está bem clara, como uma taça cristalina e valiosa: não importa onde e como você esteja, seu sorriso estará nos seus amigos, nas companhias, nos corações ao redor. Uma janta com vinho preparada a quatro mãos em um chalé sem luz é muito mais preciosa comparativamente para mim a uma praia linda e vazia de sentimentos. Uma conversa cheia de animosidades ou ideias é mais divertida com certeza imagino eu comparada a momentos solitários mesmo em paris. E a letra minúscula das cidades é justamente a importância delas para mim agora. 
Entro no ônibus e a mochila machucando meus ombros me lembra minha idade, mas ao mesmo tempo ainda não me imagino de outra maneira. Sorrio com carinho lembrando de minha amiga caminhando na chuva cedo da manhã somente para um adiós esquecido, entre um desayuno com doce de leite, medialunas e um café bem forte, como que a tentar organizar minha mente. 
Montevideo é uma cidade bem agradável, há tempos não chegava por la rambla, não caminhava pela cidade velha e nem lembrava do Teatro Solís. Cheguei sozinha me acomodando em um simpático hostel e os dias seguiram alegres e de descoberta. Consegui encontrar um amigo argentino no Mercado del Puerto, ele gentilmente nos buscou lá, mesmo meu amigo americano nos atrasando um pouco pois decidiu se deliciar com um choripan, minutos antes da escalada. Santiago dirigiu calmamente por Montevideo nos mostrando cada lado da cidade até pararmos em sua simpática casita, com um perro labrador e uma palestra divina de escalada montada cuidadosamente em diversos planos, triângulos e angulações e muitas, muitas agarras. Subimos outra vez em seu carro, já com equipos, e chegamos ao Parque Rodo, com surpreendentes vias no meio da cidade. Eu mal acreditava em escalar, guiei a primeira e já tardava oito horas da noite. Conseguimos escalar bastante e terminamos a noite com uma bebida e uma boa refeição ao estilo uruguaio na cidade velha.
Colonia é uma cidadezinha impressionante também, com águas para todos os lados, uma avenida linda, bicicletas, casarios históricos, restaurantes e um farol imponente e maravilhoso. O hostel era muito simpático e divertido, nos juntamos de noite com um casal de eslovenos e um grupo de uruguaios excelentes parrilleros. Um bom vinho e eu estava exausta pronta para dormir por dois dias seguidos, mas no outro dia já entregaríamos o carro cedinho e já decidiríamos nosso próximo destino.
Escolhi mostrar ao meu amigo americano então algumas cidadezinhas da costa de Rocha, que para mim excedem em muito a beleza das praias de Maldonado. Maldonado, mesmo com as belezas de Punta del Este, é frio, ventoso e por demais turístico, portanto caro pra caramba. Então Castilhos, Valizas, Cabo Polônio e Punta del Diablo seriam nossas próximas casas. Chegando então em Punta del Diablo me sentindo em casa outra vez. Mas a companhia já estava me incomodando, viajar sozinha ou com os meus estaria bem melhor, muita comida, bebida e chapéu de cowboy, muita conversa em inglês já estavam me deixando tonta, e já no carro para  Colonia me sentia muito distante de tudo isso. Me deitei com meu livro na praia, uma areia bem clara me torrava, mas eu insistia em estar ali, por não estar certa de onde deveria estar. Caminhamos en el pueblo, pra lá e pra cá, inúmeras vezes, artesanias, eu já com meu mate na mão, presente da minha amiga, até já enganava como uruguaia se não abrisse a boca. Compramos fideos (massa) para cozinhar com meus novos alunos de yoga e de noite a conversa entre meus amigos brasileiros eu e minha amiga acercavam minha vontade de ir embora. Meu amigo então acordou cedo, ou melhor, nem dormiu ansioso, para acertar seu visto de entrada para o Brasil, pois após toda a viagem, seu vôo seria ainda no Rio de Janeiro. Eu lhe disse pra ir, o esperaria no hostel, levantei, olhei meu rosto negro do sol e meus cabelos inesperadamente alinhados. Me servi um café forte, um pão com doce de leite e manteiga, e comecei ainda a cortar um melão de 200 pesos, ou 2 reais, mal podia acreditar. Good mellons, me gritou um israelense, e eu o olhei meio incrédula, sem ter certeza do real significado de sua frase. Voltei pra cama, pra internet, pra algum casulo ou conversa de amigos  ou família em busca de algum sentimento pra decidir algo e nada. Então busquei meu mate na cozinha e caminhei até uma praia que há muito não ia, entre algumas pedras, vazia, com salva vidas somente se exercitando. Me estiquei na pedra de shorts e top, já exausta e com calor, sentindo o mar e a delícia das rochas sobre minhas costas. Me sentia então realmente bem. Quando meu amigo voltou eu estava sentada com os pés encolhidos e escondidos sobre meu vestido rosa comprido. Ele sentou animado com vinhos na mochila, me contando em inglês que havia conversado com uma menina simpática de não sei onde visitando o namorado de não sei como. Comuniquei então o fim da viagem pra mim, estaria voltando pra casa e ele deveria seguir, a conhecer amigos, mulheres, continentes, albergues, livros, bebidas, churrascos. Escrevi todo o necessário para seu visto, nos despedimos e ele acabou por partir. Minha amiga me chamava e já tinha acertado sua bicicleta estilo uruguaio com bancos enormes para me levar até o pueblo. Compramos algumas patrícias, salame, queijo uruguaio, doritos, feijão, ou porotos e verduras. Um mate, claro, muita amizade e risos, e uma despedida leve, com um até logo a minha casa querida, Uruguay, certa de que tudo tem seu tempo, e meu tempo muitas vezes é estar só e feliz, do meu jeito, com meu espaço, tranquila. Termino então minha viagem trocando mais alguns pesos, já que há alguns dias estarei de novo em terras valizienses, e lá só em pesos, no ano novo, e escuto algo muito conveniente como a me lembrar como tudo é na vida, uma ruta de dos manos, tudo com propósito: digo a atendente 'gracias' e ela prontamente 'gracias a ti'. 





















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