Quem a gente quer ser?

Hoje minha janela amanheceu cheia de pingos fortes, a chuva teimando a cair. Eu tinha várias coisas, mesmo diminutas, de tarefas. Banco, casa, supermercado, minha aula de yoga em uma academia nova, novos alunos e perspectivas, coisas comuns. O céu encoberto e contas pra pagar, o centro da cidade e meu jeans com botas marrons de salto e cano alto me levaram por uns momentos a me perguntar: e se eu me tornasse alguém totalmente diferente?...se eu trabalhasse em uma empresa, tomasse martini em minha sala branca e preta após um dia cansativo de reuniões?...se eu tivesse cabelo curto, um casal de gêmeos e cozinhasse todo dia para uma grande família em uma casa comum?...se eu tivesse dinheiro pra caramba e passasse os finais de semana em restaurantes caros em dubai, magérrima e achando tudo o máximo?
Então eu estacionei o carro na contra mão distraída, praguejei pisando na água com minhas botas de cano alto, e cheguei na sala da Martinha, de um clube onde eu cresci, adolesci e até debutei, sim, eu debutei, ninguém é perfeito, não riam. E se eu não tivesse saído da minha cidade aos 19 anos?..se eu tivesse continuado na biotecnologia, estudiosa pra caramba, se eu tivesse me tornado bilionária produzindo animais geneticamente modificados, indo a festas e criando cavalos? Eu não teria problemas com contas, eu dirigiria um mercedes benz como a janis joplin, e eu jantaria sim, de helicóptero ainda, em DUBAI.
Então toda essa perspectiva milionária me entristeceu por alguns momentos. Será a busca por simplicidade, natureza, amizades, esportes, experiências e vivências uma névoa ou até fuga para um outro eu desejoso de consumismo, por que não? Seria eu na verdade, outra pessoa enrustida em desejos sufocados? E, mesmo agora em palavras parecer a mais pura bobagem ou devaneio, ao cruzar cabisbaixa e confusa o vestiário para minha aula de tênis, eu avistei uma linda e imponente flor vermelha e amarela. Ela se encontrava milimetricamente plantada entre outros ornamentos esplêndidos desse lindo, tradicional e aristocrático clube de tênis. E eu me recordei, do dia anterior, onde eu para aproveitar o sol, tinha saído de caiaque com meus amigos e com meu cachorro e esbarrei dentro do mangue com a mesma flor. Catei algumas, no mesmo lugar simples onde estavam algumas vacas, recolhi outras rosinhas e minúsculas, atei com um cordão, e, pronto, casa enfeitada. A mesma flor. A mesma beleza, essência. Somos os mesmos. Sorri e me dei conta estar no caminho certo. A busca interior é muito mais importante, pois nossa essência importa muito mais de onde estamos, compramos, comemos. Os prazeres são ótimos, essencias pra vida talvez. Mas não nos tornam diferentes. O mais importante está dentro de nós. Parecer, é momentâneo. Vestir algo bonito. Visitar Dubai. Mas se eu estiver triste ou com raiva, ansiedade, amargura, sem amigos ou vivências, eu estacionarei meu mercedes benz (talvez não na contra mão) não com a mesma felicidade, com certeza. Ter é bom, mas tendo ou não, somos OS MESMOS.

foto:eu sendo eu mesma

Comentários

Gil!=] disse…
Ainda bem que td não passou de um sonho... :D Saudades!

Postagens mais visitadas