Um pôr de sol (Caçapava do Sul, RS)

Mesmo minha rotina não sendo comum e não sendo rotina, sem querer me vejo acomodada na zona de conforto. Minhas aulas de Yoga em horários prazerosos, minhas práticas de esportes, minhas conversas com os amigos, alguns bares vez que outra, livros, horta, caminhadas na praia. Cada um de nós tem seu dia a dia onde acredita estar confortável. Se a gente não nota, a gente rapidamente deixa de estar em lugares novos, deixa outras sensações maravilhosas, esquece as montanhas, os mares, os pores do sol, não lembra como é dormir com um céu inteiro estrelado dentro de uma barraca e acordar no meio da noite pra vislumbrar a beleza toda de estar lá fora, deixa a conversa pela tecnologia, e simplifica a vida de um jeito bem triste.

Mas sem querer me vi combinando com amigos de viajar pra escalar e sem querer eu estava alegre demais de estar lá relembrando e cultivando maravilhosos prazeres. Como ninguém mais perto pôde ir, eu, mais um vez, coloquei mochilas em meu fiestinha preto, e parti sozinha pra Caçapava do Sul. Coloquei o relógio pra despertar, e me permiti enrolar mais uma meia hora, afinal estava sozinha, o bônus do ônus. Calmamente preparei sanduíches, revisei mapas, e dirigi por 2h sem me preocupar se a música estava alta ou ruim e me servindo eu mesma meu mate. Chegando no destino, comi meu almoço, tentei ser simpática com o sempre simpático Manoel, tentando socializar, e voltei ao casulo pegando sozinha a trilha. Caminhar bem devagar, observando o silêncio, as flores, os trevos, estar bem atenta ao meu próprio caminho sem erros. Minutos depois encontrei um casal querido, o André e a Paula, e eles rapidamente se ofereceram para uma segue até a caverna onde estavam meus amigos. Meio com vergonha de chegar de repente, assobiei até encontrar com eles, já animados num sétimo forte. Paramos pra almoçar, com direito a café passado lá em cima e tudo, e aos poucos me conectei com o grupo, saindo do meu estado de contemplação. 
Pegamos o carro e ainda naquela mesma tarde, conseguimos ir até uma Pedra chamada Pedra da Abelha, em outra propriedade. Caminhamos rapidamente até a base da via Obrigado pela Vida, uma via que eu já havia feito com o Berê uma vez, depois com uns amigos que nunca mais vi, um casal ele de Porto Alegre, ela do Canadá, a Rebeca, depois fiz com um namorado, e outra vez com o Berê. 

Começamos tranquilos, e fomos em duplas até a última cordada, uma aresta que eu já não lembrava, meu parceiro guiando toda a via extasiado, pela primeira vez. O cume e o pôr de sol maravilhoso com certeza marcou a cada um de nós, a mim me preencheu de uma paz eufórica, uma amizade e alegria imensa. O dia estava bem clarinho, um sol forte com vento, um friozinho característico. Um pouco de fotos e risadas depois, a gente voltou descendo o mais rápido possível, já que lá de cima uma chuva forte se armava. Uma caminhadinha meio no escuro depois e voltamos pro carro tudo tranquilo. 
Chegando no Manoel eu me separei dos demais e comecei de novo a curtir um pouco da minha companhia. Uma parte de mim estava louca pra encontrar todo mundo, conversar, tomar vinho e falar sem parar. Mas achei bem legal tentar por mim mesma aproveitar o inicinho da noite, arranjar um lugar pra montar minha barraca, sozinha, e preparar meus legumes. Elegi um cantinho, bem de frente pra Pedra do Leão, e comecei no meu ritmo a acomodar as varetas, a estender minha verde e velha casa de dormir. Cambiei algumas vezes ainda o lugar, estendi minhas roupas, e comecei a pensar no banho e na janta. Já de cabelos molhados e saboreando um guacamole e uma massa de arroz com molho de soja, vejo minha amiga francesa querida Floriane chegando, estranhando minha ausência. Então, por estar sozinha, valorizo mais ainda sua chegada, e começo uma conversa cheia de saudade e amizade, cheia de novidades e coisas boas, pra em seguida me juntar ao grupo, cheia de mim, cheia de todos, em paz e em total plenitude por estar ali, no melhor momento presente.

Conversamos demais e mesmo com sono, o vinho nos deixou resistir por mais algumas horas. Então dormi profundamente, até umas 4 da manhã, sentindo muita sede pensei em acordar e ir pegar um pouco de água....resmungando então, saí da barraca, me deparando com um céu de uma beleza incrível, milhares de estrelas clarinhas, como há muito eu não via...graças a deus essa sede, eu pensei, mais uma vez a zona de conforto (barraca) ia me impedir de viver uma coisa boa dessas.

O outro dia, tomei um café bem demorado, com a companhia da minha amiga Flô, já que meus amigos decidiram se deliciar com o café colonial do Galpão de Pedra, eu me segurei pra não me jogar nos bolos de chocolate e me contentei com um pão integral, aveia com banana e um café bem forte. Mochilas apertadas, ane me avisa estarem indo pra Pedra do Leão, sem saber muito o que queria, resolvi ir pela parceria e pra minha surpresa escalamos uma via muito astral, difícil e linda. Cactus transgênicos com uma travessiazinha, dei graças a deus ter ido de segunda e me contentei de ter terminado a via com meu companheiro, mesmo tendo demorado um pouco.
O final de semana estava então por terminar, voltando ao seu Manoel, começo a arrumar todas as tralhas no carro, e um pouco ansiosa pra voltar, me despeço de todo mundo e já pego a estrada. Mas ao cruzar a porteira, sinto um aperto estranho, uma dorzinha lá no fundo, um incômodo...o que será, pensei. Me dei conta então ser a mais prazerosa saudade, daquelas que a gente sente ao viajar, ao encontrar pessoas divertidas e as quais amamos muito, é seu coração repleto de sorrisos, de abraços compartilhados, de pontas de corda, de montanhas ao redor. São amigos que talvez nem saibam como eu gosto de sua presença, são lugares que continuam os mesmos depois de eu estar lá, vinhos, vias e conversas comuns, mas que, imensamente, me modificam e me deixam extremamente pronta pra semana e pro que der e vier.
 
Pois pra mim, viver é assim, intensamente livre e alegre, em sua plenitude.
 

Conglomerado lindo em um pôr de sol
O carro e principalmente o porta mala de um escalador é sempre um universo particular
Cume Pedra da Abelha, Caçapava do Sul, RS
Eu sendo feliz
Driving by myself
Imensidão e mar de pedras, e uma reflexão de talvez a gente já tenha estado aqui mesmo
Pedra da Abelha ao fundo
...dirigindo pela estrada de chão
...e pensar que a gente recebe esse presente diariamente





BONS VENTOS, NAMASKAR!


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