R.I.P. BILLIE

Um sopro. 
Essa palavra é a única lembrança dos meus pensamentos do último momento que passei com meu amigo e companheiro Billie Willie Joe. Como pode uma vida inteira ir embora? Com a rapidez, a insignificância, a instantaneidade de um sopro. Simples assim...e essas mudanças e dores últimas dos meus dias têm me ensinado muita coisa. 
Que não se pode mudar os acontecimentos. Cada coisa no seu tempo, no seu jeito, com a força que tem que ter;
o que nos acontece é proporcional a força que temos pra suportar;
toda lição vem com uma dose de sofrimento;
o amor é o que há de mais importante pra se viver;
a coragem de viver algo muito bom vale a pena sempre, mesmo com o ônus da perda;
somente vive quem realmente se entrega para o que vier;
não há nada mais belo e mais prazeroso do que doar-se...
e a principal delas:
...amar incondicionalmente. 
..e foram noites em claro, alimentando, cuidando, me doando por completo, para aquele serzinho tão dependente de meu amor e carinho. Em troca tive sua lealdade e confiança, e seu amor, principalmente. Tive momentos impagáveis, incontáveis, de alegria e amor imenso. Quantas viagens de carro, caminhadas, corridas. Quantas pegadas na praia, atrás de um peixe, ou correndo de uma onda, já que ele odiava água e banhos. Quantos olhares tristes nas despedidas e muita euforia, rabos e orelhas nas chegadas. Ou a vez que ele comeu um coelho e também o saco de incenso raro boliviano devorado em segundos e uma visita incrédula e com raiva de mim e de meu cachorro adorador de tudo e todos? Quantos lixos revirados, amigos, solidão compartilhada, colo, tristeza, alegria. 
A última vez, a última conversa, o último colo, eu senti, meu amigo, já sei, estás por ir. 
Senti teu corpinho magro, dolorido, teu desinteresse por tudo, tua súplica por ajuda. Estávamos na porta do consultório veterinário. O diagnóstico senti nos meus dedos trêmulos, nas minhas mãos outrora veterinárias, piada do destino essa. Um tumor ali, outro e outro. É isso, não é, Marta? Calma, Alessandra, espera, leva pra ultrassom, pra raio x, não chores, nem te desesperes. Mas eu já sabia. E minha amiga de infância, Stella, também veterinária, anjo, também sabia. Encheu os olhos de lágrimas e iniciou palavras inaudíveis para meus ouvidos já cheios de dor. E essas horas seriam as horas de choro da maioria das pessoas normais, dos donos normais. Mas não eu. Eu cerrei meu coração e olhos pra tudo, encerrei as lágrimas como de súbito, e mãos a obra. Sem choramigar tratei de te proporcionar o maior carinho, cama, comida, sem pensar no que vinha a seguir, e também sem pensar na efemeridade das coisas. Cada dia era um dia. Primeiro pra não sentires dor. Segundo para conseguires comer. Para dormires bem. Para engordares. E a cada dia eu chegava e tu ainda me abanavas o rabo, num esforço imenso, ainda sentias alegria em meio a tanta dor. Então um domingo a tarde eu não conseguia rir, nem conversar, voltei pra casa e, como de costume, preparei tua comida, de seringa, 20mL por vez, doía mais em mim. O cheiro da vitamina me enjoava e eu parei de comer também. Mas tu lutavas bravamente e juntos fingíamos nada acontecer, nenhuma doença, nenhuma dor, nenhuma despedida. Então na segunda, 4h da manhã, eu ouvi teu barulho na cozinha. Corri e te ajudei. Como um golpe, uma ironia ou um lembrete (passar uma situação até superar), não tinhas mais ar, nenhum, era visível a agonia. Eu tentei afastar toda lembrança, viva e traumática de estar sem ar, e iniciei uma missão de te ajudar. Em vão. Minha amiga chegou ante minhas súplicas já descontroladas. Me disse algo então, verdadeiro apesar de muito dolorido.
'É assim mesmo, Ale, nunca é fácil e sem sofrimento'.
Me abracei em ti, já não mais sem dor, já não mais sem chorar, e sem acreditar te vi partir. Simples assim. Já não estavas mais lá. Como um sopro, tinhas ido embora.
Me fingindo ser forte, deixei minha amiga ir e cuidei de tudo sozinha. Escolhi o lugar, tentando não pensar em dor, em meio as dunas da praia, muitas vezes visitada por nós, muitos gritos meus chamando por ti ali, tesouros escondidos e momentos eternos. Me dei conta de várias florzinhas amarelas, com certeza gostarás dessas, pensei. Com uma pá do meu tamanho, me pus a cavar diligentemente, sem pensar. O lençol cedido carinhosamente pelo Duda, te envolveu, sem vida, e te dei adeus. Sentei por alguns momentos, ventava forte, uma manhã bonita, um mar imenso. Senti mais ainda a insignificância de tudo. Um sopro.
...e assim se seguiram os dias...eu não exageraria em dizer, vazios. Quem se importa no seu trabalho se seu cachorro morreu? Quem entende sua dor? Com certeza eu posso entender, a vida segue, para todos, e como explicar? Como não ser egoísta e engolir a vontade de pedir para que tudo e todos parem até você entender melhor que os dias não serão mais os mesmos? 
Mas a vida segue, c'est la vie, e eu espero sinceramente ver tudo outra vez assim, risonho, com babas, orelhas, pêlos pretos por todos os lados, uma vida simples, onde as chegadas têm sempre mais valor que as partidas, onde carinho, amizade, lealdade e uma guloseima têm valor mais do que qualquer coisa, e que, não importa aonde isso tudo vai chegar, o importante é ser feliz, sempre, mesmo com todo o sofrimento no final. 

Eu te amo, meu gordo. Sempre. Rest in peace.








Comentários

Davi Marski disse…
Compartilho de forma imensa a sua dor.

Só quem teve a oportunidade de receber o amor incondicional desses amigos tão especiais, e poder retribuir de forma generosa, com dignidade, cuidado e afeto até os momentos finais consegue compreender os sentimentos que você está passando.

Meus mais sinceros votos de cheiros desconhecidos e felizes para o gordo !
julitabuelita disse…
Que bonita homenagem. Nossas moscotes são nossas parentes sim! Desejo de coração que a tua saudade seja sempre linda, amiga. O tempo vai ajudar a secar as lágrimas. Bjim.❤️
fabiola ratton disse…
Ai, menina, estou chorando aqui. Já passei muito por isso e estou prestes a passar de novo. O consolo é saber que amamos, profundamente, e fomos amadas, e fizemos tudo por eles até o final.
Gil!=] disse…
Eu lamento muito, amiga... Tb já passei por isso e estou perto de passar por isto novamente. Guarde as boas lembranças e os sábios ensinamentos que nos passam sem saber: o de lealdade e o de amar incondicionalmente o seu parceiro... Fique bem!!!
Cris disse…
é triste...

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