Quantos de nós conseguimos simplesmente viver (Bagé, um dia desses)?

Sem trabalho, sem rotina, sem afazeres ou preocupações, sem chefe, sem doenças, supermercado, televisão, celular...mesmo sendo por alguns dias?
Claro que somos muito poucos. A grande maioria das pessoas possui um trabalho fixo, família e uma série de outras preocupações. Mas todos nós em algum momento podemos nos permitir uma saída, uma pausa, seja ela para uma viagem ou descanso. Muitas vezes ou quase sempre, não nos presenteamos com isso. Colocamos vários empecilhos, como tempo, dinheiro, culpa, ansiedade, hiperatividade, medo. Como iremos deixar nosso trabalho? O que iremos dizer para nossa família? Como estaremos com pouco dinheiro? E mesmo com dinheiro, tempo e oportunidade, o medo e a falta de desprendimento muitas vezes nos impedem de ousar, sair e arriscar. Começamos a pensar no cachorro, na mãe, no pai, no que deveríamos estar fazendo nesse tempo ocioso, o que poderíamos estar produzindo, o quando de dinheiro poderíamos estar ganhando. A maldita da culpa começa incessante a nos perseguir. E abandonamos nossos sonhos, nossas possibilidades de conhecer o mundo e de nos conhecermos intimamente. Outros horizontes se descortinam e deixamos de lado a oportunidade de vivenciarmos a experiência única de convívio com outras pessoas, outros lugares e outras realidades.
Mas sempre há uma maneira de quebrarmos esse paradigma interno e modificarmos nosso comportamento caso isso seja um desejo ou necessidade. Identificar em nosso projeto de vida nossas reais aspirações e vontades nos torna pessoas mais bem resolvidas e felizes. Se para uns é cômodo e seguro estar em casa com a família, nas suas tarefas e atividades, para outros a necessidade de estar livre, curioso e ativo em outros ambientes e paisagens instiga ansiedade e infelicidade caso isso não seja percebido. Mudar e ir atrás do que se precisa nesse caso é primordial.
Mas mesmo com a facilidade de correr o mundo com só uma mochila, muitas vezes incorro nessa estranheza ao cruzar porta fora. Será que eu não deveria trabalhar mais? Ou correr mais? Ou me estressar mais? Mesmo com todo o trabalho em dia, casa em ordem, dinheiro no banco, boas perspectivas, saúde nos conformes, na hora de entrar no carro, penso, deveria eu estar me preocupando? Saio mesmo assim, um pouco feliz, um pouco em dúvida e demoro a começar a relaxar e curtir, me dando conta, como é difícil simplesmente viver. O viver simples, se permitindo as coisas de que gostamos mais, regozijando dos momentos belos, vivenciando e aproveitando os dias de descanso. Quantos de nós simplesmente vive e quantos gastam seus dias preocupando-se a melhor forma de viver, a mais produtiva, a mais competitiva, a mais prudente, a mais excelente? Quando vê, a vida passou, os momentos se foram, e estávamos preocupados.
Por isso, essa semana, arrumei tudo o que tinha que fazer, agendei os compromissos necessários, respondi o correio eletrônico, deixei os cachorros no canil, não dei ouvidos as estranhezas da família e amigos e tirei mais alguns dias de escalada. Sim, eu viajo na semana que vem. Sim, eu sou doutoranda, não tenho poupança nem talões de cheque e até poderia estar essa semana em casa organizando (?) as coisas para minha viagem ou estudando ou trabalhando mais. Mas eu vou escolher por estar na beira de um fogo hoje a noite. Cozinhando um milho, sentindo um frio gélido das montanhas, arrumando minha barraca laranja mais uma vez no meio do mato. Também vou escolher amanhã acordar bem cedinho e tomar um café demorado, para em algumas horas estar no sopé de alguma rocha conhecida e de lá estar o dia inteiro a me testar, me descobrir, me desafiar. Vou preferir ao término desse dia, encontrar meus amigos, cevar um mate forte, cozinhar outra vez ou tomar um vinho, e dormir tranquila certa das minhas escolhas. Sei que para muitos é difícil, como as escolhas são difíceis na maior parte das vezes. Cabe a nós saber a delícia e a dor de sê-las.

(Estrada de Bagé, seis da manhã)

...on the road
Chegando com sono
É só ir uns km adiante e acertar tudo direitinho

O primeiro dia, ainda de sol e algumas escaladas....

Bagé é assim, um mar de pedras num meio do pampa

Caminhando numa brecha de bom tempo

...playing

...descansando..
...caminhando

...explorando

e a manhã começava assim fria, mas depois esquentava
Café da manhã caprichado, demorado e improvisado, tem algo melhor que isso?
Captação de água inteligente
..escalando antes da chuva
....emissões de carbono permitidas sometimes


Quem será que está observando quem?
Um horizonte bonito, de perder de vista

...caminhadas, caminhadas
...e nesses momentos, a paz da semana vai se reconstituindo, a energia vai sendo revitalizada e enfim nos sentimos vivos de novo
O meu amor é assim...
Ô dia bem bonito...
..e tem um pontinho vermelho nessa foto que é o Duda.
Imensidão azul (e verde e laranja e...)

Láaa...
a legítima ÁGUA DA PEDRA


..natureza curiosa..
  

Caminhamos bastante, aproveitando as rochas estarem molhadas, e isso fez um enorme bem para as pernas, braços, corpo mas principalmente para a alma. Bergamotas ao sol, rocha molhada, passos largos e mente nada estreita. Caminhar faz bem, viver também.

A natureza nos presenteia com essas pequenas florzinhas que foram se abrindo a medida que os dias passavam e a chuva insistia em encher tudo de vida. A paisagem por trás das caminhadas se descortinava de uma maneira impressionante, me fez respirar, descansar e relaxar. E esses bichinhos esquisitos me impressionaram enormemente. Alguém sabe o que são eles? Se vivem assim nessa simbiose perfeita?


Descanso?
Raptor (7b), quase, quase lá. O Duda malhou essa bonita via e esteve muito forte e confiante, com umas passadas bonitas  e totalmente negativas. Apesar da frustração dele, por um último lance molhado e um tanto esticado, eu senti uma enorme confiança e orgulho da sua evolução. Mesmo morando longe das rochas agora, com engenharia química, trabalho e nossas viagens espaçadas, ele continua sólido na sua graduação e bem fisicamente. Sou fã e admiro muito o meu amor e companheiro. 

A fogueira (com cuidados para não espantar os animais ou  danificar ou queimar a flora) é essencial na vida no mato. Pra esquentar a água do mate, pra ocupar as noites, pra espantar mosquitos e o frio e, principalmente, pra conversa na volta do fogo.

Porque precisamos de muito pouco para nos sentirmos em casa
Foto: Carlos Eduardo Gehlen

Uma boa semana a todos, de muito descanso e ao mesmo tempo de bons trabalhos, de bons planos e projetos. A semana começa corrida com treinos (vamos ter que intensificar muito esses dias), mochila e casa desarrumada, e uma enorme motivação dar conta de tudo e haja tempo, haja fôlego, mas com um pouco (ou muita) vontade a gente consegue o que quer, sempre, pode ter certeza :->

Comentários

Miriam Chaudon disse…
Bagé é muito bom mesmo! Outro findi fomos, Du Bois e eu, e mesmo com o tempo instável conseguimos aproveitar. Lindas fotografias!

Postagens mais visitadas