Aprendendo (Budismo e Escalada)

"...Talvez tivéssemos ficado meio arrogantes com nossas belas novidades técnicas, garras para gelo e solados emborrachados, produtos dessa nossa era de facilidades mecânicas. Havíamos esquecido que a montanha ainda detém o grande trunfo e que só nos permitirá a vitória quando bem lhe aprouver. Que outra razão para o profundo fascínio exercido pelo montanhismo? (Eric Shipton, em Upon that Mountain citado por John Krakauer em No Ar Rarefeito)"
Crescimento pode se dar de diversas formas. Aprendemos escutando, lendo, estudando, e, principalmente, vivendo. Lugares, pessoas, cursos, livros e sobretudo as experiências que vivemos é que nos fazem crescer e aprender de verdade sobre as coisas. Humildade, respeito e bom senso, no entanto, nos fazem a aprender as coisas mais importantes no evoluir: que não sabemos de tudo, que sempre precisamos aprender mais e que o que mais precisamos conhecer é a nós mesmos: nossos limites, nossas aptidões, nossas fraquezas, personalidade, temperamento, intuição, saúde, hábitos, nossas necessidades, desejos, nossa espiritualidade, enfim, nosso universo particular. 
O final de semana foi cheio dessas descobertas e foi muito especial para mim. A semana tinha sido especialmente difícil no meu doutorado, cheio de cobranças e medos e eu só pensava em ir para São Leopoldo para o aniversário da minha cunhada e descansar. Então decidimos ir no Templo Budista e os dias foram se encarregando de várias coisas legais que me ensinaram muito, o encontro com os amigos e com uma família muito querida, minhas limitações técnicas e físicas na escalada e minha limitada disciplina na minha busca espiritual.
As rodas de oração, os mantras entoados, as lamparinas. O sol na pedra, a sede, a noite chegando, a fome e o cansaço. Era para ser um final de semana comum com uma escalada comum, mas subestimei meus sentimentos, minha espiritualidade e esqueci da montanha. Ela, que acalma, que aquece, que ensina. Que me permite, ou não, que eu evolua. Que me mostra minhas fragilidades e minhas emoções, minhas qualidades e meus defeitos. 
Começamos a escalar tarde o Pico da Canastra, uma escalada já conhecida. Eu comi pouco, tomei pouca água e peguei bastante sol. O dia já indo embora e minha escalada avançava com dificuldade e nada ajudava nosso cume naquele dia: corda pegando em quinas, rapéis no escuro, cansaço, fome. Em compensação, o céu estrelado, o pôr de sol mais lindo que eu já vi nos últimos tempos, a silhueta da pedra contornando ao longe o horizonte, e uma lua meio brilhante, meio inteira acima da minha headlamp. Nesse momento desejei que meu namorado chegasse logo, porque o calor da pedra já não me esquentava e um sentimento bonito de ternura, apego e preocupação me encheu aquela hora. Ouvi a voz dele gritar meu nome e a corda do rapel chicoteando para baixo, um alento. Eu ouvia meu fôlego ainda não recuperado, um esforço físico descomunal, desnecessário, ao longo das cordadas feitas. Vi meus limites e minhas fraquezas, precisava treinar, precisava ser mais rápida, mais forte, precisava distribuir melhor minha força nos movimentos, precisava evoluir. Ao mesmo tempo agradeci minha calma, minha alegria genuína, meu amor e minha gratidão por tudo. Minha intuição e minha sensibilidade. E, talvez, minha capacidade de aprender com tudo isso.
A montanha está onde estivermos. Ao mesmo tempo que ela pode ser algo imóvel, inexpressivo, ela pode ser algo vivo, pulsante, sábio e sagrado. E ela, só ela detém o seu triunfo e pode fazer imperar sempre a sua vontade. E se lembrarmos disso, podemos aprender que precisamos e devemos aprender sempre o que somos realmente. Que esse é o objetivo. Esse é o caminho. O caminho do meio. 

Ao girarmos as rodas de oração, emanamos bençãos para todos os seres e levamos nossas preces de remoção de obstáculos a todos os deuses. Há lindas casas de oração pelo templo e nos retiros, antes da mecanização destas, havia sempre um responsável por mantê-las girando de maneira bonita e auspiciosa.

Na entrada do templo podemos ver as bandeirolas de oração e todos os domingos, as 8h da manhã há sessões de meditação com perguntas e respostas sobre o Budismo Tibetano Vajraiana. Deve-se chegar antes, as 7:30, tirar sapatos, chapéu e manter silêncio e respeito no local de prática e meditação.

Guru Rimponche quando visitou o Brasil depois de anos ensinando na América escolheu Três Coroas, RS, para a construção do Templo por esse parecer exatamente sua casa no Tibete, uma grande montanha com árvores e ar puro e uma energia emanando paz e sabedoria.

Buda Akshobia que representa consciência e sabedoria, sua prática auxilia a eliminação de venenos como raiva e maldade. 
Pico da Canastra, Canela, RS.

Croqui Pico da Canastra e a via Ronco do Bugio

Que todos tenham uma semana maravilhosa cheia de coisas boas, que a gente possa praticar o desapego, a compaixão, a calma e a humildade. Quantas vezes não parece impossível ou mesmo bem difícil, mas visitar lugares assim nos fazem refletir sobre tudo isso. Escalar com certeza também nos leva a experiências bem profundas de auto conhecimento e tranquilidade. Boa semana e bons ventos a todos.







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