Subo neste palco



Be who you are and say what you feel because those who mind don’t matter and those who matter don’t mind.
(Dr. Seuss )


Eu sempre escutava causos de se receber comentários feios pelo blog mas nunca tinha passado por isso. Ontem me deparei com um anônimo (óbvio) comentando sobre minhas impressões sobre a cidade em que estou morando, o sr(a) anônimo(a) disse que não era verdade o que eu estava falando, ofendidíssimo disse que era para eu sair da cidade dele já, vaza. rsrrsr. Fiquei espantada e fui refletir sobre isso. O objetivo do blog é extravasar minhas opiniões acerca de vários temas recorrentes, sem ofender, nem criticar, mas se eu for neutra sempre, não atingirei o objetivo, não serei autêntica, reflexiva. Serei somente jornalística talvez. Mas enfim, tirei o comentário e pronto, longe de mim chatear alguém e me chatear, porque claro que fiquei chateada e triste. Mas como na nossa vida, ao mesmo tempo que aparecem pessoas que não nos levam à nada de bom, há outras que acrescentam e muito, conteúdo, alegria e reflexões. E assim é minha prima Mônica, que também tem um blog lindo, o Vida Sustentável, e me ajudou a refletir sobre o tema quando comentei o ocorrido.
Para começo de conversa, blogs são sistemas de publicação na web. A palavra tem sua origem da abreviação de weblog: web (teia, designa o ambiente de páginas de hipertexto na Internet) e log (diário) – diário na Web. Mas o que motivaria uma pessoa a compartilhar a intimidade abertamente a desconhecidos? E na Internet!

Um depoimento expresso no livro “Blog: Comunicação e escrita íntima na internet” nos ajuda a esclarecer razões que justificam a popularidade dos blogs:

"...Ter um diário íntimo também é algo difícil. É uma atividade que exige uma certa disciplina, que ordena a vida (...).
Pessoalmente o que me anima é uma personalidade que eu classificaria como “arquivista” e de colecionadora. Ter um diário íntimo é uma maneira de colecionar os dias..."
(Adorei a idéia de colecionar os dias)
Para Schittine, 2004, um diário é uma encenação, uma representação de si. Nós somos a personagem principal de nosso diário. Nós temos às vezes a tendência a escrever as coisas não como elas são, mas como deveriam ser. Escreve-se para embelezar ou dramatizar a vida, para lhe dar um sabor novo. O diário é, muitas vezes, um dos últimos refúgios do sonho.

Eu ainda prefiro a visão de Paulo Freire quando ele nos que só é alfabetizado aquele que é capaz de escrever a sua própria história. “Talvez seja este o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a sua vida como autor e como testemunha da história, isto é , biografar-se, existencializar-se, historicizar-se.” (Fiori in Freire 1987:10) . Pra mim o blog vai além de projetar uma realidade desejada, mas sim a de entender sua própria realidade, refletir, dividir, ordenar. Por isto talvez, a ferramenta blog tem sido utilizada também na educação, em que os alunos são estimulados à escreverem seus textos e diários e através deles, começam a emergir idéias sobre valores, sobre os próprios atos e opiniões sobre os outros. As frases vão ficando mais estruturadas e diminuem os erros ortográficos pois eles, ao relerem seus textos, fazem algum tipo de estranhamento do tipo: será que é assim mesmo que se escreve tal palavra? Perguntam para os facilitadores que não respondem diretamente mas sugerem que procurem dicionários on-line.(Pellanda, 2006:82). E a questão da publicação e do mostrar pra todo mundo com certeza diz respeito ao posicionar-se diante da sociedade, interagir, dividir, pedir opinião e dar opinião.


Finalizo então esta pequena provocação com um texto que me foi pedido por uma querida aluna de jornalismo do Rio de Janeiro sobre "O Que Te Motiva a Escrever no Blog" para o seu trabalho de conclusão de curso que ilustra um pouco o que acho de tudo isso. Com toda certeza incerta.
"Eu sempre gostei muito de escrever. Além daquela coisa de
diários, agendas e questionários (lembra do questionário?) eu vivia às voltas de
uma máquina de escrever velha escrevendo meu primeiro romance e livros de
poesias, além de crônicas policias e obituários fictícios. A passagem para o
blog foi rápida, assim que soube da ferramenta, comecei empolgada a fazer um
diário virtual, na época o myspace. E não parei mais, isso já faz quase 10
anos.
O Blog tem aquela coisa de você se sentir muito perto de todo mundo,
amigo íntimo mesmo. Você faz muitos amigos, e de uma forma muito enriquecedora,
trocando idéias e impressões sobre assuntos do seu interesse de maneira
descontraída e acredito que com muito mais liberdade do que se você conhecesse a
pessoa e falasse pelo telefone.
Depois tem aquela coisa do palco. Tem aquela
motivação de você se sentir um mestre da literatura, lido por milhares,
praticamente um membro da Academia Brasileira de Letras. Exageros à parte, é
sempre muito legal ver a responsabilidade do que você escreve, de que você está
sendo lido por muita gente, formando opinião, fazendo parte de um processo, de
um sistema, contribuindo com suas idéias, sua maneira de ver a vida, isso é
muito legal.
Eu acredito que muita coisa no mundo da informação mudou depois
do adereço dos blogs. A vida na internet ficou mais divertida, o blog aproxima
as pessoas, elas se mostram mais, trocam mais, interagem mais. Sem medo de ser
feliz. A facilidade com que você conhece alguém ou lê o que ela pensa sobre
determinado assunto é o que eu acho de mais legal e enriquecedor, esse contato
com todo mundo, essa grande rede. Além disso, a qualidade da informação
impressiona, dependendo do assunto, alguns blogs trazem um material tão ou até
mais completo que a mídia tradicional, sendo freqüentemente consultados quando
eu pesquiso sobre algo como a escalada, por exemplo.
Há o medo da
superexposição, ou uso indevido das imagens, afinal você está se mostrando ali,
dividindo algo seu com quem você nem conhece. Eu até já fui vítima disso, não
por comentários indesejáveis, esses felizmente, eu nunca tive o desprazer, mas
por uso de minhas imagens. A internet realmente é perigosa, não há uma
legislação específica que te proteja e o dano realmente pode ser assustador. Mas
depois de tudo que aconteceu, tenho uma teoria sobre isso, é um pouco “Polyana”
talvez, mas que tem funcionado e foi o que me fez voltar a blogar. A teoria é
sobre como você faz as coisas. Eu escrevo sempre, de coração aberto, com o maior
prazer e satisfação do mundo. Pesquiso notícias e sites legais, durante o dia
tenho vários insights do que poderia ser uma matéria legal, e tudo que acontece
serve de inspiração para fazer um texto legal e dividir com os leitores. Além
disso, leio outros blogs, seleciono fotos, e isso tudo com o maior prazer,
terapia mesmo. Como se eu tivesse pintando um quadro, escrevendo um livro,
fazendo uma mesa de marcenaria, uma colcha de retalhos, enfim. Todo mundo está
sujeito a maldade das pessoas. E se a gente ficar pensando nisso, com essa idéia
fixa, essa proteção, a gente não vive, não faz mais nada do que gosta pensando o
que pode acontecer. Então coloco meu coração lá, muita energia positiva e dessa
forma creio plenamente que tudo ficará bem e que meu blog será algo muito bom na
vida das pessoas assim como é na minha. Que vai fazer a diferença, que vai fazer
rir, questionar, instigar. Sem medo de ser feliz".

Comentários

Ciça disse…
Eu bem conheço essa aluna de jornalismo! rsrsrsrs...
Alê, teu blog me inspira, tuas incertezas e tuas certezas me fazem refletir e crescer... Adoro ler tuas coisinhas, adoro saber da tua vida, e com certeza atravez desse portal te conheço mais um pouco, essa minha amiga de longe que é mais íntima que muitos que vivem ao meu lado, compartilho da tua vida e ADORO!
E aqueles que não tem coragem pra dizer o que pensam sem estar anônimos, não valem o gasto das digitais para serem citados.
Beijos da tua amiga de longe!

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